Deve-se ao Presidente Mário Soares o gesto de renovar a galeria de retratos, ao encomendar o seu a Júlio Pomar. Depois de Columbano, foi a primeira vez que um grande artista pôde entrar neste espaço simbólico. Mas, ao contrário de Columbano, Pomar é um pintor rebelde, mergulhado numa reflexão produtiva sobre a arte do século XX cujas heranças selecciona, glosa e recria, com comovente e qualificadíssima paixão. Por isso, ao encomendar-lhe o retrato de um Presidente da República, Mário Soares sabia que não poderia esperar uma obra convencional, voltada para uma inexistente e inexpressiva eternidade.
A obra final, livre e libertária, retrata, com argúcia, o homem sem nenhuma preocupação de celebrar o Presidente. É, evidentemente, uma revolução na galeria de retratos, enunciando as circunstâncias incontornáveis em que ela deve prosseguir: pela escolha de grandes artistas, de percurso inquestionável entre os seus pares e a crítica especializada, que tenham gosto pelo retrato, concedendo-lhes plena liberdade de trabalho, confiando no diálogo, real ou imaginado, que o artista sempre estabelece com o seu modelo. Outra coisa não disse Francisco Pacheco, o pintor sevilhano do século XVII que citei em epígrafe.