Cadeira dos Leões

Percorrendo a Galeria dos Retratos Oficiais do Museu da Presidência da República, o olhar mais atento vai descobrir um elemento comum às representações de Manuel de Arriaga e Mário Soares, apesar dos 78 anos que separam os dois quadros.

Quer Columbano Bordalo Pinheiro, quer Júlio Pomar, os autores, respetivamente, destas pinturas, optaram por «sentar» os chefes do Estado na «cadeira dos leões», a mesma peça de mobiliário que pode ser identificada nos retratos de Bernardino Machado e Manuel Teixeira Gomes.

A cadeira em mogno, que exibe na extremidade dos seus braços duas cabeças de leão em bronze dourado, integra, desde 1912, com Manuel de Arriaga, e tal como hoje, a decoração do Gabinete Oficial do Presidente da República, no Palácio de Belém.

A documentação à guarda do Arquivo Nacional da Torre do Tombo (IAN/TT) permite-nos reconstituir a história provável desta peça, que, depois da implantação da República, acabou por ficar, talvez de forma inadvertida, associada à imagem do chefe do Estado.

As pistas apontam para Pierre Barthélemy Dejante como o seu autor: segundo os registos encontrados, em maio de 1858, foi paga a quantia de 72 mil réis a este marceneiro francês, pela execução de «uma cadeira de brassos estofada de marocain embotido de latão e ornatos doirados para secretaria del Rei Sr. Dom Pedro V» (IAN/TT, Casa Real, cx. 4540, doc. 46).

P.B. Dejante (final século XVIII – 1859) chegou a Lisboa em 1821, onde se estabeleceu como mestre do ofício de marceneiro, primeiro na Rua de S. Francisco, depois na Rua das Portas de Santa Catarina.

A qualidade da execução e dos materiais utilizados, bem como a diversidade dos modelos de mobiliário (alguns deles de sua invenção), granjearam-lhe fama, conquistando, rapidamente, uma vasta e importante clientela, em Lisboa e no Porto.

Intitulando-se «Marceneiro de Sua Majestade Fidelíssima», foram numerosas as encomendas que produziu para a Casa Real, a pedido de vários monarcas.

Uma das primeiras encomendas régias que se conhecem data de 1828. A regente do reino, D. Isabel Maria, mandou fazer uma secretária para oferecer ao irmão, o Rei D. Miguel: resultou numa peça ao estilo Império, com «quinze segredos», ricamente decorada com talha dourada e bronze, que se encontra, desde 1903, no Palácio de Belém. Numa época em que eram raros os móveis assinados, esta secretária tem a particularidade de «esconder» duas assinaturas do marceneiro francês, em dois lugares distintos.

Com D. Maria II e D. Fernando II, são também recorrentes as encomendas, nomeadamente para os palácios das Necessidades, Belém, Sintra e Pena. Para a Rainha, Dejante terá, inclusive, executado uma das suas invenções, uma «mesa com música», com um mecanismo que, acionado certamente por uma manivela, pedal ou fole, tocava uma música predefinida.

O casamento de D. Pedro V e D. Estefânia (1858) irá justificar uma nova e significativa encomenda ao marceneiro francês, com destaque para o leito em pau-rosa e as mesas de cabeceira destinados aos aposentos da Rainha. Estes móveis integraram, mais tarde, a decoração do atual Gabinete Oficial do Presidente da República, no Palácio de Belém, numa altura em que aqui ficavam hospedados os chefes de Estado estrangeiros de visita a Portugal, como foi o caso do Presidente francês Émile Loubet (1905).

A atividade de Dejante não se cingiu, apenas, à marcenaria, dedicando-se, também, à indústria dos mármores: é-lhe atribuída, por exemplo, a descoberta de novas jazidas desta pedra ornamental, sobretudo no Alentejo, e a sua exploração.

Era, ainda, presença habitual em certames nacionais e internacionais, como a Exposição Universal de Paris, onde, em 1855, foi agraciado com vários prémios.

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Retrato oficial do Presidente Manuel de Arriaga, de Columbano Bordalo Pinheiro. Foi com este Presidente que a cadeira dos leões «chegou», em 1912, ao Palácio de Belém. Retrato oficial de Mário Soares, de Júlio Pomar. Cadeira dos leões, uma encomenda atribuída ao marceneiro francês P. B. Dejante. Retrato de Pierre Barthélemy Dejante, coleção dos seus descentes, retirado do artigo «A família Dejante: a marcenaria e a indústria dos mármores no Portugal de Oitocentos», de Celina Bastos. Secretária com o batente aberto, assinada pelo marceneiro francês P.B. Dejante. Quarto de dormir para os chefes de Estado e familiares estrangeiros de D. Carlos e D. Amélia, de visita a Portugal, atual Gabinete Oficial do Presidente da República. Na fotografia, é possível identificar o leito e as mesas de cabeceira executados por P.B. Dejante. Fotografia do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa. A cadeira dos leões, imagem do mpr+ de maio de 2022.