Cartas para uma bandeira

Implantada a República, a 5 de outubro de 1910, tornou-se prioridade para o novo regime redefinir os símbolos nacionais.

Se a escolha do hino foi consensual ― o Hino da Carta foi substituído pela marcha A Portuguesa ―, o mesmo não se verificou com a bandeira, assistindo-se a um aceso debate entre os republicanos.

De um lado da barricada, os defensores da permanência do azul e branco, como Guerra Junqueiro, Braamcamp Freire, Lopes de Mendonça ou Sampaio Bruno; do outro, os proponentes do verde e rubro, entre eles Teófilo Braga, António José de Almeida ou Afonso Costa.

Esta contenda manteve-se mesmo depois da aprovação oficial da bandeira pela Assembleia Nacional Constituinte, a 19 de junho de 1911, e dividiu a sociedade civil.

Memória dessa polémica são as cartas enviadas a Teófilo Braga que o Arquivo dos Presidentes ― MPR guarda.

Nelas, vários cidadãos dirigem-se ao chefe do Governo Provisório manifestando a sua opinião sobre a escolha da nova bandeira, apresentando inclusive, alguns deles, a sua própria proposta para o símbolo nacional.

Recuperemos, por exemplo, o bilhete-postal assinado por João de Barros, que defendia a substituição da esfera armilar, a qual, segundo o autor da missiva, se assemelhava mais a uma peça de fogo-de-artifício, por uma âncora verde-mar.

Enquanto António dos Santos, do Porto, congratulava Teófilo Braga pela escolha do «verde e vermelho», Constância Silva Coelho apelava, antes, à permanência do azul e branco, por acreditar que «a maior parte dos portugueses d’agora a veriam substituir [a bandeira] com grande mágoa».

José Fontes de Melo sugeria na sua carta que ambos os projetos fossem considerados, reunindo-se, assim, na bandeira, as quatro cores em discussão: branco, azul, verde e vermelho. Propunha, ainda, que ao centro ficasse a esfera armilar e o escudo (com os castelos e as quinas), encimados por oito estrelas, o barrete frígio e as letras «R.P.» (de República Portuguesa).

E num poema dedicado à bandeira, da autoria de Joaquim Pinto Macário, Teófilo Braga é confrontado com esta pergunta: «Que mal faz à República / A azul branca bandeira nacional? / Decerto não se encontra em raciocínio / Que à República faça o menor mal.»

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Carta de José Fontes de Melo para Teófilo Braga, com uma proposta para a bandeira nacional. Poema de Joaquim Pinto Macário enviado a Teófilo Braga, dedicado à bandeira nacional (1.ª página). Poema de Joaquim Pinto Macário enviado a Teófilo Braga, dedicado à bandeira nacional (2.ª página). Sátira sobre a polémica em torno da bandeira nacional: Guerra Junqueiro e Sampaio Bruno, à esquerda, defensores do azul e branco; Teófilo Braga, António José de Almeida e Afonso Costa, proponentes do verde rubro. O presidente do Governo Provisório Teófilo Braga dirigindo-se, de elétrico, para o seu gabinete de trabalho. O Governo Provisório foi criado após a instauração da República. Proposta de bandeira nacional - Duarte Alves Leal Proposta de bandeira nacional