A Sala Árabe do Palácio da Cidadela de Cascais

Quem visita o Palácio da Cidadela de Cascais, hoje afeto à Presidência da República, encontra uma pequena sala de planta assimétrica, que se destaca como um dos melhores espaços decorativos do edifício.

Ao entrar, o nosso olhar é imediatamente desviado para o teto, cujo trabalho do estuque, inspirado nos motivos decorativos do Palácio de Alhambra (Granada, Espanha), determinou, em tempos, a sua designação como «Sala Árabe».

Corria o ano de 1870 quando o Rei D. Luís decidiu transformar a antiga casa do governador da Cidadela de Cascais num palácio de verão. Foi durante a campanha de obras levada então a cabo, dirigida pelo arquiteto da Casa Real, Joaquim Possidónio da Silva, que a Sala Árabe ganhou forma, espelhando o gosto pelo exotismo tão em voga no século XIX.

Por essa altura, e um pouco por todo o país, a influência das culturas orientais (chinesa, japonesa, árabe, bizantina) foi materializada no exterior e interior de edifícios, como nos palácios da Pena e de Monserrate, em Sintra, no Palácio da Bolsa, no Porto, no Teatro de Garcia de Resende, em Évora.

Regressando à Cidadela, os arabescos pintados a vermelho, azul, branco e dourado do teto terão sido encomendados aos irmãos Meira, naturais de Afife, Viana do Castelo, célebres pela qualidade de execução dos seus estuques.

Um deles, Domingos António Meira, foi um dos estucadores mais requisitados do seu tempo, tendo trabalhado para o Rei D. Fernando II, que muito apreciava o seu mister. Condecorado pelo monarca com a Ordem de Cristo, em 1895, viria a realizar várias viagens de estudo a França, Inglaterra, Bélgica, Suíça, Itália e, claro, Espanha.

Olhando para a aguarela que o pintor espanhol Enrique Casanova fez da Sala Árabe, por volta de 1889, constatamos que o gosto pelo exotismo não se cingia ao teto: nas paredes, dependurados, e seguindo a moda de finais do século XIX, pratos de porcelana de fabrico oriental.

Hoje, a decoração da sala continua a evocar esse gosto original pelo exotismo, com os pratos de porcelana chinesa, dos séculos XVIII e XIX (Museu Nacional de Arte Antiga, legado Ana Maria Pereira da Gama), e um raro contador da Índia Mogol, do século XVII (Palácio Nacional de Queluz).

Já na parede junto à janela da sala, um retrato a óleo homenageia o rei que decidiu transformar a casa do governador da Cidadela de Cascais em Paço Real: nele vemos D. Luís, com 19 anos, fardado de oficial da Marinha.

Com uma carreira naval interrompida pela morte prematura do irmão D. Pedro V, de quem herda a Coroa de forma inesperada, D. Luís, já fatalmente doente, manifestou como seu último desejo morrer contemplando o mar.

Cumprindo a sua vontade, a 23 de setembro de 1889, a família real mudou-se para o Palácio da Cidadela de Cascais.

Aí, provavelmente através da janela da Sala Árabe, D. Luís passou os seus últimos dias a contemplar a corveta Bartolomeu Dias, que em tempos comandara, e «aquelle mundo d’agua, que doces recordações da mocidade, que ainda não ia longe, se lhe avivariam na memoria saudosa do passado» («O Ocidente», 1889). A 19 de outubro, a poucos dias de completar 51 anos, falecia o monarca.

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Imagem do número 16 da rubrica mpr+ A Sala Árabe pelo aguarelista espanhol Enrique Casanova. Teto da Sala Árabe, após o projeto de reabilitação e restauro do edifício, que decorreu entre 2007 e 2011. Pormenor das portadas das janelas da Sala Árabe, com vista para o baluarte da fortaleza de Nossa Senhora da Luz. Sala Árabe. Ao fundo, o retrato do Rei D. Luís. Pormenor do retrato do Rei D. Luís. Sala Árabe. Ao fundo, contador da Índia Mogol.