Durante séculos, a produção de porcelana foi um segredo da China. A primeira vez que na Europa se ouviu falar de porcelana foi no séc. XIII, após o regresso de Marco Polo da sua viagem fantástica à Ásia. O mercador veneziano contou maravilhas sobre uma loiça translúcida, leve, elegante, mas ao mesmo tempo resistente, e comparou a sua textura a umas conchas que, na época, eram também utilizadas como moeda em algumas regiões da Ásia. Como em italiano esse tipo de conchas era designado de porcella, o nome passou a ser sinónimo de porcelana.

A descoberta do caminho marítimo para a Índia (1497-1498), por Vasco da Gama, intensificou o comércio entre o Ocidente e o Oriente e fez da porcelana uma das principais mercadorias que afluíam ao porto de Lisboa. Esse produto exótico era cobiçado por nobres e famílias reais que viam nas peças de porcelana uma forma de ostentarem o seu estatuto social.

Sucediam-se, por isso, por toda a Europa, tentativas de descobrir o segredo da porcelana dura: seria feita a partir de conchas e argila? Seria diluindo conchas e pedra branca? Em vão. Até ao séc. XVIII, apenas na China se conhecia o segredo.

Foi nos primeiros anos de 1700, na Saxónia (atualmente Alemanha), que dois homens – o físico Ehrenfried Walther von Tschirnhaus e o alquimista Johann Friedrich Böttger – conseguiram descobrir o segredo. Afinal, o principal ingrediente era o caulino! Surgiu, assim, em Meissen, no ano de 1710, a primeira fábrica de porcelana dura na Europa. Em 1756, seria a vez da França, com a Fábrica de Sèvres, sucedendo-se várias fábricas por todo o continente europeu. Em Portugal, foi no ano de 1824 que, por iniciativa de José Ferreira Pinto Basto (1774-1834), D. João VI concede alvará régio para a criação da fábrica da Vista Alegre, em Ílhavo (Aveiro).

No início, produziam apenas vidro e «cerâmica pó de pedra», o que irá mudar a partir de 1832 graças à descoberta de importantes jazidas de caulino a norte de Ílhavo. Em 1852, o Rei D. Fernando II visita a fábrica, tendo sido produzida uma baixela completa para a Casa Real portuguesa que, doravante, ficaria cliente.

No Palácio de Belém existem dois vasos que datam do período inicial da Real Fábrica da Vista Alegre. Designados Vasos Rousseau em homenagem ao primeiro mestre de pintura daquela unidade fabril, o francês Victor Rousseau, que foi contratado em 1836 e que permaneceu na fábrica até à sua morte, em 1852. Teve um papel determinante, pela introdução da cor, decoração e modelos, muito influenciado pela Fábrica de Sèvres. Em 1851, a Vista Alegre esteve presente na Exposição Internacional de Londres. Rousseau deixou a sua marca nas gerações de pintores que se lhe seguiram. O nome destas peças é bem sinal disso, pois sabemos que foram feitas após a sua morte.

Na base dos Vasos Rousseau do Palácio de Belém está inscrito o ano da sua produção, bem como a assinatura do pintor: 1856, Gustave Fortier, o sucessor de Rousseau na escola de pintura da Vista Alegre. E é bem curioso que, ao lado da assinatura do pintor, esteja a anotação «o mais velho», para que não restassem dúvidas quanto ao seu autor: é que havia na fábrica outro Fortier, filho de Gustave!

A decoração destas peças, que atualmente se encontram na Sala Dourada do Palácio de Belém, reflete a marca deixada pelo pintor Gustave Fortier: delicadas composições florais, grinaldas, arabescos e um brasão de armas que, de imediato, nos remete para D. Pedro V. O Bem-Amado é formalmente Rei ao atingir a maioridade, em setembro de 1855, o que faz com que estes vasos sejam do primeiro ano do seu curto reinado.

Sem certezas, poderão ter sido uma encomenda da Casa Real para assinalar a subida ao trono do jovem soberano, ou uma oferta da Real Fábrica da Vista Alegre para essa ocasião. Não restam, porém, dúvidas de se tratarem de peças emblemáticas: por evocarem um pouco da nossa história, mas também da longevidade da fábrica Vista Alegre que em 2024 comemora 200 anos.

Saiba mais:

Mendes, Ana Rita Soares - Vista Alegre: história, colecionismo e mercado na atualidade, Lisboa, 2016. Disponível em: https://repositorio.iscte-iul.pt/handle/10071/12728

Dinis, Andreia Filipa Paiva – O segredo da China: a porcelana das suas origens à última dinastia, Lisboa, 2022. Disponível em: https://repositorio.ul.pt/handle/10451/54498

ESA

Multimédia

Percorra a galeria carregando nas imagens para ampliá-las e ler as respetivas legendas.

Cipreia-moeda (Cypraea moneta), em italiano porcella. Marco Polo (séc.XIII) comparou a textura das peças de loiça do Oriente com a destas conchas, acabando o seu nome por designar porcelana. Vaso Rousseau produzido pela Vista Alegre em 1856, no início do reinado de D.Pedro V. Vaso Rousseau (pormenor). Inscrição na base dos Vasos Rousseau do Palácio de Belém: «Gustave Fourtier, aîné [mais velho] / 1856 / Vista Alegre». Em 1888, no jubileu do Papa Leão XIII, o bispo de Coimbra ofereceu a Sua Santidade dois vasos idênticos aos do Palácio de Belém. Revista O Occidente N.º 325, 1 de janeiro de 1888. Reportagem da «Ilustração Portuguesa» com a história da Vista Alegre. Em 1908, a fábrica iria participar na Exposição do Rio de Janeiro e uma das peças era um Vaso Rousseau com a representação de D. Maria Pia. Revista Illustração Portugueza N.º 127, 27 de julho de 1908. Aspeto da Sala Dourada com os dois Vasos Rousseau expostos e que integram o circuito de visitas guiadas ao Palácio de Belém. Imagem gráfica do número 34 da rubrica mpr+.