Em abril de 1910, o pintor Roque Gameiro trazia à estampa uma gravura em homenagem à República, regime que seria implantado meses depois, a 5 de outubro.
A composição retrata os principais intervenientes do movimento republicano, como os futuros Presidentes Bernardino Machado, Manuel de Arriaga ou António José de Almeida.
Um olhar mais atento encontra, na primeira fila, uma figura feminina, a única desta galeria de ilustres: é Ana de Castro Osório – jornalista, pedagoga, escritora, feminista e ativista dos direitos das mulheres e das crianças.
Na edição de outubro de 1910 da revista «A Mulher e a Criança», no rescaldo da implantação do novo regime, eram estas as suas palavras: «Nós não fizemos muito pela República, materialmente falando, mas fizemos bastante moralmente, só pelo simples facto de nos mantermos agremiadas a despeito de tudo. A República é, pois, também um pouco obra nossa, a nossa filha – não o esqueçamos!»
Desde meados do século XIX, mas, sobretudo, a partir do início do século XX, a participação cívica e política das mulheres portuguesas começou-se a evidenciar.
Numa época em que o Código Civil ainda proibia a mulher casada de publicar os seus escritos sem o consentimento do marido, muitas faziam ouvir a sua voz através da imprensa, republicana e não só, nas páginas de boletins, revistas e jornais, alguns dos quais dirigidos e escritos por mulheres.
Maria Veleda, professora e pioneira na defesa da educação das crianças e da emancipação feminina, chegou, inclusive, a ser condenada por abuso de liberdade de imprensa, na sequência de um artigo publicado no jornal «A Vanguarda» com referências à Rainha D. Amélia (9 de fevereiro de 1909).
Ao mesmo tempo, a progressiva conquista do espaço público fazia-se pela militância na vida associativa, com a constituição de agremiações da mais diversa índole: pacifista, feminista, republicana, sufragista, maçónica, nacionalista.
Durante os últimos anos da Monarquia, milhares de mulheres politizaram-se, discursaram, peticionaram, criaram instituições, participaram em congressos, reuniões, saraus, homenagens, cortejos e manifestações.
Liberdade, emancipação económica, proteção e educação da mulher e da criança, conquista de direitos civis e políticos eram algumas das suas aspirações que, advogavam, só se concretizariam plenamente com a mudança de regime.
Uma das mais relevantes associações foi a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, a primeira agremiação republicana formada exclusivamente por elementos do sexo feminino, cujo início formal das atividades se dá a 27 de fevereiro de 1909.
Mas quem eram estas mulheres? Eram, sobretudo, mulheres letradas, professoras, escritoras, médicas, modistas, proprietárias. Com cerca de 1000 sócios, a Liga, no entanto, pouca ou nenhuma expressão tinha granjeado no interior do país e mesmo a militância das agremiadas era, muitas vezes, pontual e superficial.
Seriam, precisamente, dois elementos da Liga, as médicas Carolina Beatriz Ângelo e Adelaide Cabete, as produtoras das primeiras bandeiras que saíram à rua na revolução de 1910. Como recordava Adelaide Cabete, foi «numa noite de agosto (…) e debaixo do maior sigilo maçónico, [que o Dr. José Cunha] nos dava o encargo de mandar fazer 20 bandeiras verde-rubro (…). No dia seguinte, recebia-se a fazenda e, nessa mesma noite, a tarefa estava concluída, 24 horas depois os revolucionários estavam de posse do símbolo sagrado da Revolução».
Quando a revolta saiu à rua, um número incerto de mulheres juntaram-se à multidão: enfermeiras, voluntárias ou simplesmente quem decidiu manter-se ao lado dos maridos, filhos e amigos nas linhas de combate, como Amélia Santos, funcionária da cervejaria Águia, eternizada num postal a segurar um revólver, nas barricadas da Rotunda.
Rosa Ramos Pereira, que prestou assistência aos feridos, foi fotografada para a revista «Ilustração Portuguesa», de pistola e baioneta. Também Olivia Toscano Saldanha, encarregada e vigilante da Obra Maternal, ganhou notoriedade ao auxiliar os feridos na Rotunda.
Na contagem dos mortos e feridos da revolução, segundo o relato de Celestino Stefaninna, 18 nomes eram de mulheres, a maioria vítimas de armas de fogo ou bombas. O jornal «Diário de Notícias» dava conta de duas delas: Carminda Moreira, ferida por uma bala na orelha direita, e Mariana da Conceição, atingida na perna direita por uma granada.
Implantada a República, houve lugar a esperanças e desilusões: se as novas leis do Divórcio e da Família foram festejadas, por preverem a igualdade entre os sexos, em 1913 a legislação negou explicitamente às mulheres o direito de voto, o qual só chegaria, sem qualquer restrição, com a revolução de 25 de abril de 1974.
Ana de Castro Osório, ainda em 1911, lamentava-se: «Nós mulheres portuguesas continuamos pois… a não ser portuguesas, porque todo aquele que não tem direitos civis, nem políticos não é cidadão português».
RC





