Manuel Teixeira Gomes, o Presidente-Escritor

Em 1938, 180 exemplares do livro «Maria Adelaide», então editado pela Seara Nova, foram apreendidos em várias livrarias, e, mais tarde, destruídos, depois de a obra ter sido proibida pela Direção dos Serviços de Censura.

O seu autor, Manuel Teixeira Gomes, encontrava-se em Bougie (atual Bejaia), na Argélia, onde vivia desde 1931, depois de ter renunciado à chefia do Estado, em dezembro de 1925.

Em carta ao amigo e, também, escritor, João de Barros, comentava: «Segundo consta, as autoridades apreenderam a “Maria Adelaide”; que lhes faça muito bom proveito. Isso espevitou-me um pouco e até me causa desejo de escrever outro romance».

As razões para tal apreensão não ficaram explanadas, mas o erotismo de algumas passagens e o cenário de pobreza em que discorre a história não lhe terão sido alheias.

O pai queria-o médico, mas Manuel Teixeira Gomes, que, aos 15 anos, trocou Portimão por Coimbra, cedo se revelou, segundo as suas próprias palavras, um «refinado cábula».

O seu dia dividia-se entre a boémia, a literatura e… a boémia. Reprovado pela Universidade, e desaprovado pela autoridade paterna (que lhe chega a cortar a mesada), deixa Coimbra e segue para Lisboa (1877) e depois para o Porto (1881), onde se matricula, por uma última vez, na Escola Médico-Cirúrgica.

Repetindo o estilo de vida que tinha cultivado na cidade dos estudantes, não obteve o título de «Doutor». Perdia-se, antes, nos círculos literários e artísticos, onde granjeou muitas e grandes amizades: Fialho de Almeida, Sampaio Bruno, Soares dos Reis, João de Deus, Basílio Teles, João de Barros.

Foi no jornal portuense «Folha Nova» que publicou o seu primeiro texto, em 1881, seguindo-se a colaboração regular com outros periódicos, como «Folha de Hoje» ou «O Primeiro de Janeiro», e a publicação de alguns contos.

Foi preciso, no entanto, chegar à casa dos 40, e depois de trocar a vida errante de boémio pela direção dos negócios do pai, proprietário e comerciante de figos secos e outros produtos algarvios, para escrever o primeiro livro: «Inventário de Junho», de 1889.

Numa carta ao amigo João de Deus, de abril de 1927, contava: «Percebi, porém, que n’aquella curva da vida a literatura intervinha de veras, e podia preparar recursos para attenuar o desamparo e as misérias da velhice, e puz-me a “maginar” dramas, romances, e novellas. (…) Abriu-se assim um capítulo nôvo na minha vida e que não foi dos piores. Promptamente, se me povoou a imaginação de toda a casta de figuras: estranhas, familiares, heroicas, amáveis, violentas, cómicas, vulgares, que tomavam forma, e cada uma d’ellas, avolumando, dava motivo a um conto, a uma novella, a um drama (…)».

Seguiram-se «Cartas sem Moral Nenhuma» (1903), «Agosto Azul» (1904), a peça de teatro «Sabina Freire» (1905) e «Gente Singular» (1909). Manuel Teixeira Gomes começa, então, a ser notado e apreciado.

A implantação da República, em outubro de 1910, leva-o a uma pausa forçada.

Ministro plenipotenciário em Londres e Madrid, seria eleito Presidente da República em 1923, cargo a que renunciou quando faltavam menos de 2 anos para terminar o mandato.

«Solto de Belém», nas suas palavras, e já exilado em Bougie, regressa, sem pressas, à literatura, retomando a colaboração com a imprensa portuguesa, já por essa altura sob o olhar atento da censura.

Publica, entre 1932 e 1939, os livros «Cartas a Columbano», «Regressos», «Novelas Eróticas», «Miscelânea», «Maria Adelaide» e «Carnaval Literário».

Quando o jornalista Norberto Lopes o visita, em 1938, no quarto n.º 13 do Hotel de L’Étoile, encontra-o rodeado de livros, revistas científicas e literárias, jornais, cartas, papéis, «enfim, todo o material de consulta e de trabalho do escritor e epistológrafo».

Aos 78 anos, quase cego, vive um isolamento monacal a que se impôs, confessando que o que lhe prende à vida são «as cartas, os artigos, os livros…».

Após a sua morte (1941), a Seara Nova publica mais duas obras: «Ana Rosa» e «Londres Maravilhosa».

Sepultado, primeiro, no cemitério cristão de Bougie, os seus restos mortais regressariam à terra que o viu nascer, Portimão, em 1950, a pedido da família.

O Algarve foi, aliás, presença assídua na sua escrita.

O Algarve de Manuel Teixeira Gomes é sensorial, estético, por vezes sarcástico e caricatural; são as paisagens marinhas e da serrania, as ruas de Portimão, Ferragudo, Lagos, Vila Real, São Bartolomeu de Messines; são os pescadores e a copejada do atum.

«Na Rocha. — Nordeste rijo; mar de calafrios, muito azul, e ao abrigo da costa a água gelada, uma mesa de cristal, a aguentar os rochedos que separam as duas praias —, o vale do Vau, de esmeralda clara, avivada pelos infinitos casinhotos brancos; as serras de vidro transparente: a Ponta da Piedade, imaterial…»

«Regressos», Seara Nova, 1935.

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Manuel Teixeira Gomes. Caricatura de Francisco Valença com referência às primeiras obras publicadas por Manuel Teixeira Gomes. Programa da peça «Sabina Freire», da autoria de Manuel Teixeira Gomes, representada no Cine Teatro de Portimão, em 1968. Encenação da peça «Sabrina Freire», no Cine Teatro de Portimão. Entre o elenco, encontrava-se a filha de Manuel Teixeira Gomes, Ana Rosa, representando o papel de D. Maria Freire. Resenha sobre o livro «Gente Singular», de Manuel Teixeira Gomes. Caricatura de Francisco Valença com alusão à obra publicada por Manuel Teixeira Gomes, desde Bougie (atual Bejaia, Argélia), onde vivia desde 1931. Imagem gráfica do número 49 da rubrica mpr+.